Sabor de infância, sem crise alérgica

Por Karlla Marinho 

Você já ouviu falar da APLV? A alergia à proteína do leite de vaca é o tipo de alergia alimentar mais comum na infância. De acordo com a Sociedade Europeia de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (ESPGHAN, 2012):

– 1 a 17% das crianças menores de 3 anos possuem sintomas sugestivos de APLV
– 2 a 3% das crianças de 3 anos têm APLV
– 0,5% em bebês amamentados exclusivamente possuem APLV
–  1% das crianças de 6 anos possuem APLV

A APLV é mais severa que outras alergias pois ela se manifesta nos primeiros meses de vida e até chegar ao diagnóstico correto, os bebes e a família acabam sofrendo por um longo período.

A jornalista Mariana Braga é mãe do Ayton de dois anos e já sofreu na pele a aflição de ver o filho apresentar os sintomas alérgicos. Ela conta que a primeira crise alérgica foi aos 9 meses, após tomar a vacina contra febre amarela (a vacina é à base de clara de ovo, assim como a da H1N1). Depois do ovo, ele apresentou novos sintomas alérgicos após experimentar um derivado de leite. E assim foi o começo de uma longa pesquisa na internet sobre o assunto que resultou em uma reviravolta na alimentação e na rotina de toda a família.

A Mariana aprendeu a lidar com a APLV para garantir a saúde e o lindo sorriso do príncipe Ayton e agora ela compartilha com os nossos leitores um pouco dessa experiência.

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Blog MC – Mariana, como você descobriu que o Ayton tinha alguma alergia alimentar?
MARIANA- Primeiro o Ayton manifestou a alergia ao ovo, aos 9 meses, por meio da vacina contra febre-amarela, que é feita à base de ovo (mais precisamente, da clara) Depois ele passou a empolar ao leite e derivados. Nada muito forte, mas a reação ao ovo foi  severa. A alergia à proteína do leite de vaca (APLV) é provocada pela proteína do leite (caseína), que não pode ser dissociada do leite e derivados e provoca reações graves. Geralmente problemas respiratórios e/ou gastrointestinais (regurgitação intensa, vômito, diarréia com sangue, tosse com muito muco e até inflamações nos ouvidos. Já ouvi casos de crianças que desenvolveram asma e outras que até perderam a audição!). Sim, é muito grave a alergia e compromete o desenvolvimento do bebê. Por isso mães que amamentam também devem cortar o leite de vaca da alimentação, porque passa para o leite materno.

Hoje, no mercado, existe uma infinidade de produtos sem lactose, porque dá pra tirar o açúcar do leite, a proteína não. Essa não sai de jeito nenhum e faz um mal danado à saúde, até mesmo para os não alérgicos (mas isso é uma outra história, já que não quero brigar com a poderosa indústria de laticínios).

Blog MC – E como foi o período até o diagnóstico correto?
MARIANA- Costumo dizer que mãe tem a visão além do alcance [kkkkk]. Ao contrário de muitas mãezinhas que conheço, inclusive da Criale (Grupo do WhatsApp formado por mães de crianças com alergia alimentar), não peregrinei em médicos para ter o diagnóstico preciso. Muitas sofreram bastante com isso, porque a alergia alimentar (pasmem!) é um mundo desconhecido até para médicos que se dizem especialistas em Manaus. Teve mãe que só teve diagnóstico preciso em São Paulo. Enfim, bastou meu filho tomar a vacina, ter a reação ao ovo (episódio desesperador na minha vida, ele ficou todo inchado, irreconhecível), pra eu NUNCA MAIS dar nada com esse ingrediente. Fiz uma faxina nos armários da cozinha e passamos a ler TUDO o que tem nos rótulos dos produtos. A gente passa a ter medo de dar qualquer coisa pra criança, achando que ela vai ter alguma reação alérgica. Por isso, não raro, mães como eu ouvimos que somos loucas, neuróticas ou, dos mais antigos,  “você cresceu comendo tudo isso e não morreu” (sim, isso ofende, porque se a criança tiver reação, só quem sofre são os pais e a própria criança no Pronto-Socorro). Enfim, como amamentei, exclusivamente, até ele completar seis meses, ele nunca havia tido contato direto com o leite de vaca, só pelo meu leite, mas nunca reagiu. Ficou empolado quando fiz o teste com um iogurte sem lactose (dei uma colher de chá e esperei a reação. Cinco minutos depois ele empolou). Daí, a grosso modo, entendi que o leite e o ovo fazem mal ao meu filhote.

Blog MC – E você já tinha esse estilo de vida, esse relacionamento com a alimentação saudável?
MARIANA- Nunca! [kkkkkkk] Quem me conhece ou já trabalhou comigo sabe que antes de engravidar,  eu comia até “merenda de bicicleta”. Fazia academia e comia muito errado. Mas a gravidez mudou a minha vida (infinitamente para melhor). Havia uma bênção dentro de mim e que podia sofrer graves consequências caso eu, única responsável por ele, continuasse comendo errado.

Virei “marmiteira”. Passei a comer mais frutas, legumes, troquei o refrigerante pelo suco. Mas, por ignorância, ainda consumia produtos industrializados (sucos de caixinha, molhos de tomate, etc). Depois que o Ayton nasceu e manifestou as alergias, aí sim, passei a ler TUDO (eu não disse muito, disse tudo) sobre alimentação saudável e, juro, foi libertador [kkkkkkkkkk].

Vi o quanto a indústria de alimentos ilude, mente e é covarde… gente do céu. Aprendi a ler rótulos, tabelas nutricionais e, meu Pai… quanto veneno ingeri minha vida toda. Não, definitivamente, eu não queria isso pro meu filho. Vendo a crise na Saúde do País decidi que não quero curá-lo de nada. Quero PREVENIR, PROTEGER. Nas tabelas nutricionais, sempre que vejo palavras que sequer consigo pronunciar, não compro! Nada de sódio e nem “antes” (espessantes, corantes, acidulantes, conservantes etc…) Dedico as poucas horas que tenho livres (geralmente antes de dormir) desvendando esse universo tão rico da alimentação saudável. No começo foi um “choque cultural”, houve todo um processo de desconstrução de crenças e costumes, mas a natureza de Deus é tão perfeita, que nos oferece infinitas possibilidades de cores e sabores. Passei a fazer tudo em casa, porque “quanto maior for o prazo de validade de um produto, menor é o nosso”.

Blog MC – E qual a sua estratégia em um aniversário, ou almoço de família?
MARIANA- Então, ele não precisou se adaptar, porque nunca comeu nada que não fosse saudável. Logo, não tem referências e não faz comparações. Difícil mesmo é para nós, adultos. Minha geração, que cresceu na década de 1980, pegou o grande “boom” dos alimentos industrializados, que prega “a praticidade, saúde, alegria (salgadinhos de pacote sempre oferecem um brinquedinho, um adesivo é isso não é à toa. É exatamente para seduzir as crianças e qual o pai que não cede a um pedido de seu pequeno, mesmo que ‘só um pouquinho’?) quem não se lembra, que nos aniversários da década de 80, as mesas eram enfeitadas com as garrafas de refrigerante? Gente, tinha até “roupinhas” pra elas [kkkkkkkkk]. Então, porque tomar refrigerante era sinônimo de status.

Hoje, nos encontros de família levo o suco do meu filho. Se eu não tiver tempo pra fazer, ele toma água. Sim, de verdade. Hoje, até o maridão (que adora uma coca-cola) tem consciência de que devemos dar o exemplo. Eu não tomo há mais de um ano e hoje confesso que sinto até repulsa.  Ele toma, mas não  quer que o filho tome e prefere deixar ele crescer pra pensar em como vai proceder quando o Ayton perguntar que líquido escuro é esse que não é da cor de nenhum suco que ele conheça [kkkkkkkk].

Ayton se deliciando com picolé feito pela mamãe

Ayton ama as delícias super saudáveis, preparadas pela mamãe gourmet

Como na creche as professoras orientam ele sobre o que ele não pode comer nas festas dos amiguinhos e ele, graças a Deus, é obediente (entra a mãe coruja) ele não contesta, pelo menos por enquanto. Tem mães que se preocupam em fazer uma festa “inclusiva” porque meu filho não é o único com restrições alimentares lá, e fazem festinhas lindas, coloridas, cheias de frutas.

Família reunida: Papai, Mamãe e o príncipe Ayton

Família reunida: Papai, Mamãe e o príncipe Ayton

Blog MC –Ele é curioso para experimentar outros alimentos?

MARIANA- Sim, muito! Come de tudo e tem um apetite que é uma maravilha. Desde que saiu (parcialmente) do peito, mostro tudo, explico tudo a ele. Sempre deixo ele comer só sem me importar com a bagunça. Deixava ele ver, tocar, sentir a textura dos alimentos, pra ele se adaptar. Não dei açúcar pra ele até os 2 anos e faço isso com muita restrição. (Nunca comeu balas!) O açúcar e o sal mascaram o sabor dos alimentos. O leite materno não tem nenhum desses componentes, então ele precisava conhecer o azedinho das frutas, o gosto natural das papinhas, das sopas, etc. Quando crescemos é que fazemos tudo errado. Passamos a consumir sal e açúcar como se não houvesse amanhã. As crianças não precisam disso, exatamente porque não têm referências. A referência que ele tinha era do meu leite. Então, depois que a médica liberou o uso do sal e do açúcar passei a adicionar com muita cautela. Como tenho aversão a industrializados, em casa, uso o açúcar mascavo ou o demerara (Google, por favor kkkkkkk).

Também parabenizo a Creche onde ele estuda pela parceria. Lá eles fazem um trabalho excelente nesse sentido. Engraçado é que, antes de colocar na boca ele pergunta o que é e só come se a gente explicar “arroz, feijão, carne, batata” etc. porque desde bebê eu explico. Se engana quem pensa que os bebês não assimilam essas informações.

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Blog MC – E as receitas e tempo pra se organizar com o trabalho, casa e marido. Ser saudável requer organização?

MARIANA- Gostaria de poder me dedicar mais. De verdade. Porque sou a-pai-xo-na-da por cozinha saudável, pesquiso muito, tenho livros, etc. Mas só tenho tempo nos fins de semana. Então, o que posso (e quando dá) congelo e deixo reservado para usarmos durante a semana. Os pães e molhos de tomate são exemplos do que dá pra ser congelado. Confesso que os bolos são mais saborosos quando feitos na hora. Assim como os “leites” vegetais (de coco, amêndoas, amendoim). Não congelo. Faço o que dá pra usar na semana. Deixo, no máximo, quatro dias na geladeira.

Pão de queijo de batata doce que não leva queijo e nem ovo

Pão de queijo de batata doce que não leva queijo e nem ovo

Blog MC – E o custo benefício?. Os alimentos sem agrotóxico são mais caros, mas  você acredita que vale mais apena?

MARIANA- Agora você tocou no ponto mais doloroso da nossa conversa [kkkkkkkkkk]. Se eu não morasse aqui, já teria virado vegana. Juro. Mas sabemos que nós, amazonenses, somos penalizados pelas questões geográficas e logísticas. Frutas, legumes e verduras essenciais para a nossa alimentação custam muito caro. Orgânicos, nem se fala! Um bom exemplo é o brócolis. Dá pra ser substituído pela couve, mais em conta, mas quando se trata de comida para criança, se não tiver uma variedade, já viu. Logo eles enjoam e o apelo visual de um prato conta muito.

Então, eu congelo. Já congelei o espinafre, que é caro, batido em um pouquinho de água (sem coar) para colocar num suco e depois numa massa, num molho de tomate. Também congelo morangos e amoras. Não são frutas regionais, são caras e, quando sei que não vou dar conta de usar tudo numa receita, congelo (sem água). Quando preciso bato no liquidificador para sucos e vitaminas. Dá pra fazer isso, também com a água do cozimento da beterraba. O que geralmente segue ralo abaixo, dá para congelar e depois usar no lugar do  molho de tomate ou colorau para dar aquela cor no arroz, purê, sopas, sucos ou no preparo de massa de macarrão, panquecas, etc. Essa água é cheia de nutrientes importantes. Ah, gosto de comprar in natura, mas se não der tempo de fazer (trabalho em dois turnos) sempre tenho no congelador um mix de legumes congelados, comparados em supermercado mesmo. Não é o ideal, mas emergencialmente, são melhores que os enlatados, isso sem dúvida! ( Mas eu disse emergencialmente!)

Leite de amêndoas caseiro

Leite de amêndoas caseiro

Blog MC –Qual é a receitinha preferida do Ayton?. Compartilha com nossos leitores. 

MARIANA- Ele adora bolos e biscoitinhos caseiros (Maizena, araruta, cacau etc). A última experiência que ele adorou foi a do bolo que fiz no Dia das Crianças. Também é uma excelente opção para a lancheira da meninada, porque é muito nutritivo.

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Tomem nota: 

– 3 maçãs pequenas

– 1/2 xícara de chá de óleo vegetal (girassol, milho… menos soja!)

– 1/2 xícara de chá de água

– 1 colher de sopa de suco de limão

– 1/2 xícara de chá de banana prata amassada

– 1 xícara de chá de uvas passas (O Ayton ama, mas é opcional)

– 1 xícara de chá de açúcar mascavo

– 1 colher de chá de canela em pó

– 1 xícara e meia de farinha de trigo integral

– 1 colher de sopa de fermento em pó

Preparo:

  1. Preaqueça o forno a 210°C. Descasque as maçãs já lavadas e coloque as cascas no liquidificador. Adicione a água, o óleo, o limão e a banana amassada e bata até a mistura ficar homogênea.
  2. Pique as maçãs em cubinhos e coloque em uma vasilha aonde vai misturar a massa. Adicione as passas, o açúcar mascavo, a canela em pó, a farinha de trigo integral e a mistura do liquidificador.
  3. Mexa até ficar uma mistura uniforme.
  4. Acrescente o fermento e misture bem.
  5. Distribua tudo nas forminhas e leve ao forno por 25 minutos ou até espetar com um garfo e ele sair limpo.

Prontinho! A casa fica com um cheirinho maravilhoso de infância!. Essa receita não é minha, mas aqui em casa faz sucesso.

Blog MC –Depois dessa aula, prometo que serei mais criteriosa no supermercado. Mas, o que mais me impressiona é observar como a maternidade é transformadora, como nossos talentos ficam aflorados e como descobrimos outras paixões que se adaptam a essa nova rotina.

Minha expectativa com essa conversa com a Mari é motivar outras mães, inclusive eu mesma, a tratarem a questão da alimentação com a seriedade necessária.

Mesmo sem os sintomas alérgicos, o importante é fazer escolhas preventivas para a saúde, mas na vigência dos sintomas alérgicos é preciso conversar com o médico da criança ou procurar um especialista (alergista ou gastropediatra) para que ele possa investigar e considerar a hipótese de APLV.

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Publicado em 11 de novembro de 2015, em Vamos passear?. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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